Monde Musique

Blog de música. Toda música. Por Lucas Cunha

Entrevista com Rebeca Matta em sua fase mais ‘eletrônica’

Entrevista feita em 2006, na época do lançamento do disco "Rosa Sônica"

Entrevista feita em 2006, na época do lançamento do disco “Rosa Sônica”

A música de Rebeca Matta já bateu muito forte em mim. Em especial, suas apresentações ao vivo quando do lançamento do disco “Garotas Boas Vão Pro Céu, Garotas Más Vão Pra Qualquer Lugar”. Lembro em particular de um show dela, no teatro Acbeu, quando abriu para Tom Zé (com Caetano Veloso na plateia).

Performance no palco, banda, letras fortes, iluminação. Não era apenas uma cantora tocando suas músicas com uma banda. Havia toda uma preocupação com o resultado de cada música (pelo menos essa era minha impressão, ainda inexperiente de shows, em especial dos gringos).

Toda vez que sabia de uma apresentação sua, lá ia eu conferir. E nem eram tantas assim, pelo menos as que chegavam ao meu conhecimento, o que dava um charme e sabor pra cada show. Rebeca traduzia para o contexto local muita coisa que estava descobrindo na esfera internacional (Bjork, Portishead e música eletrônica em geral) e até nacional (Tom Zé era um dos artistas que ela sempre revisitava).

Bom, depois de uma sumida dos palcos, Rebeca lançou o “Rosa Sônica”, que era (ainda é, acho) um disco para lá de experimental. Ela não jogou fácil. Algumas músicas que Rebeca já tocava nos últimos shows do “Garotas Boas”, ganharam arranjos quebrados, eletrônicos até a medula. Algo como se o Radiohead tivesse pulado direto do “The Bends” para o “Amnesiac”, se vocês me entendem.

“Rosa Sônica” foi lançado por um edital da Petrobras e, por meio da assessoria de imprensa da empresa, foi arranjada uma matéria exclusiva (acho) pra Folha de S. Paulo, sem que ninguém por aqui estivesse sabendo do lançamento do disco. Isso causou um certo “ciúme” ou “birra”, como queiram, na turma de cultura de A TARDE, que não quis publicar nada sobre o disco de bate-pronto. Até saiu um pouco depois, se não me engano, quando foi lançado o disco físico (a matéria da Folha foi antes do lançamento) ou algum show aqui em Salvador.

Então aproveitei a brecha e mandei uma sugestão de entrevista para Rebeca, a ser publicada apenas no site, já que o jornal não daria nada (por algum tempo, pelo menos). A entrevista abaixo foi feita por e-mail e Rebeca demorou um tantinho pra responder. Lembro que justificou que eram “muitas perguntas, mas estou me divertindo respondendo”.

Lembro que o título da entrevista foi dado pela minha editora do online à época, a Luciana Moherdaui, dando esse tom “polêmico” e mais atrativo pro leitor também. Estávamos ainda na era carlista na Bahia, onde ainda imperava o clima de “sorria, você está na Bahia (da axé-music)”, na política turística-cultural do governo ACM. E Rebeca era quase um “patinho feio” quando se imaginava na música feita na Bahia, tanto que 99,99% das matérias na imprensa do sul-maravilha focavam nisso de “rock na terra do axé”. (Vejaaqui, aqui e aqui). Se bem que estamos em 2013 e ainda tem jornalista sulista com esse lide…

Este ano (2013), para nossa alegria, Rebeca saiu da toca e lançou um disco ao vivo (gravado em 2012, se não engano). Um ao vivo bem a cara de Rebeca Matta, onde ‘recupera’ (grifo meu) várias músicas do “Rosa Sônica” (bem melhores nesse novo registro), apresenta novas músicas muito  boas (uma delas, com o falecido guitarrista Peu Souza) e até ‘esnoba” seu maior sucesso, “Garotas Boas”. Dá pra entender tirar seu maior hit de um disco “ao vivo”? Se estamos falando de Rebeca Matta, faz todo sentido.

Então fiquem com essa entrevista de 2006 com a ‘garota má’ Rebeca Matta.

Rebeca Matta critica poder e mídia na Bahia (ainda na era carlista)

Por e-mail, Rebeca fala de seu novo trabalho “Rosa Sônica”, se demonstra irritada pelo rótulo da imprensa sulista que a define como “a outra música de Salvador” e critica a relação promíscua entre poder e mídia na Bahia.

“Muita grana e articulações políticas que não deixavam espaço para manifestações artísticas, mas a gente encontra outras formas de se expressar e de fazer as coisas em que acredita, sem depender e sem desejar depender desse poder.”

A Tarde On Line – O que é Rosa Sônica? “Rosa” é o lado Rebeca e “Sônica” o lado eletrônico?

Rebeca Matta – A rosa é um signo de beleza, de delicadeza, é perfume, movimento no sentido circular e infinito e ao mesmo tempo tem os espinhos que são como espadas guerreiras, prontas para defender a sua existência. Às vezes ela precisa cortar, arranhar, ferir para continuar viva e conseguir afirmar sua natureza. Sônica tem a ver com o movimento em si, são as ondas, os sons que querem invadir os espaços, a música que fazemos. Foi meio ao acaso que surgiu o nome do disco, combinando esses sentidos, fazendo também de alguma forma uma ligação entre algo feminino e eletrônico. É também o nome da primeira faixa do cd.

A Tarde On Line – Os rumores que o disco já estava finalizado começaram em 2004. Por que a demora no lançamento de Rosa Sônica?

Rebeca – Comecei a trabalhar no disco em 2004, já estava compondo coisas e comecei a trabalhar na produção de algumas músicas com o Arto Lindsay, o Melvin Gibbs e o Gilberto Monte, depois veio o Boing, mas ainda existiam algumas indefinições com a Lua Discos (gravadora dos outros dois discos), que continuava interessada, mas não podia alocar os recursos necessários na ocasião. Então, enviei o projeto do cd para o Petrobras Cultural e em 2005 ele foi contemplado, na categoria de produção musical contemporânea. Porém, até o momento em que os recursos são disponibilizados leva um tempo. E só nos últimos seis meses é que pudemos intensificar mais todo o processo até a sua conclusão.

A Tarde On Line – Produtores como o Arto Lindsay (Caetano Veloso, Marisa Monte) e Kassim (Los Hermanos) tiveram seus nomes ligados ao disco. Por que esta parceria, além da revista Outra Coisa (do músico Lobão, fã confesso de Rebeca) não vingaram?

Rebeca – O Arto se envolveu bastante no processo inicial, com as letras, harmonias e idéias iniciais. Depois continuou como um ouvido sensível, questionador e estimulante do nosso processo criativo. O fato de ele ficar muito tempo no exterior dificultou um envolvimento mais intenso. Já o Kassim não participou por questões de agenda pessoal. E com relação à revista Outra Coisa também não foi possível por atrasos da revista em edições anteriores e por indefinições de patrocínios que atrasariam muito o lançamento do Rosa Sônica.

A Tarde On Line – Seu último disco, “Garotas Boas…”, foi bastante elogiado pela mistura de rock, mpb e eletrônica. Já em “Rosa Sônica”, a eletrônica ganhou um maior espaço no resultado final. Temos, pela primeira vez, um estilo predominante em um dos seus discos?

Rebeca – Os elementos eletrônicos realmente estão mais presentes em Rosa Sônica, mas não vejo isso como um limite, nem como desejo de encontrar um estilo ou algo parecido. Desejo fazer exercícios que me estimulem mudanças, por que não quero parar de mudar, mesmo por que se a gente não mudar, a gente vira moda, fica prisioneiro do que já fez e do que as pessoas se acostumam a ver na gente.

A música digital oferece mais possibilidades, fica bem mais rápido experimentar novos sons, ruídos e ritmos, tudo pode ser transformado, criado, tudo pode fazer parte da música. A eletrônica é uma ferramenta que me fascina, não só por abrir possibilidades diferentes, mas também porque modifica a relação do homem com a música, aproximando-o de sonoridades que ele não tem tanto costume de ouvir. Não me sinto presa a nada e nem tenho compromisso com o rock ou com a mpb, ou com o trip hop, ou samba, ou seja lá o que for.

A Tarde On Line – Qual a influência da escolha dos produtores Gilberto Monte e Boing em Rosa Sônica?

Rebeca – Fiz o convite e eles toparam. Mergulhamos tanto no processo que, mais do que produtores, nos tornamos cúmplices. Este disco foi feito a seis mãos. Ele só existe dessa forma por que essas três pessoas acreditaram no que ele foi se tornando.

A Tarde On Line -Muitas matérias sobre você nos meios de comunicação, principalmente do sul/sudeste, colocam sua música como a “outra música de Salvador”. Você ainda acha esse discurso coerente?

Rebeca – Não consigo entender que ainda se faça esse tipo de discurso. Isso realmente é irritante. Há oito anos, num contexto bem menos estimulante para produções fora da axé músic, dava até pra entender que qualquer música fora daquele padrão fosse tratada como um e.t., principalmente por que era o momento auge da axé, tudo girava em torno disso por aqui. Muita grana e articulações políticas que não deixavam espaço para manifestações artísticas. É claro que ainda há na Bahia uma relação muito promíscua entre poder econômico, político e midiático, com um forte controle de toda a política cultural, mas a gente encontra outras formas de se expressar e de fazer as coisas em que acredita, sem depender e sem desejar depender desse poder. Sem ter a Bahia como uma referência, sem ter que ser garota propaganda da Bahia, e estando com o espírito voltado para outras coisas. Há uma geografia que é física, mas há outra que é espiritual, que não conhece fronteiras, e há muitas pessoas por aqui com outros olhares e ouvidos, que não ficaram presas na geografia nem no tempo. São elas que me estimulam, são com elas que procuro me conectar.

A Tarde On Line – O Gilberto Monte já é bem conhecido como produtor e por seu grupo, o tara_code. Mas quem é Boing, seu outro produtor?

Rebeca – Ângelo Thomas Suzart (Boing) é baiano soteropolitano. O Boing, eu conheci através de amigos em comum. Fiquei empolgada com seu trabalho, o convidei para fazer uma música comigo e não paramos mais. Temos desejos em comum e idéias parecidas de como conduzir a vida, isso nos aproximou bastante.

A Tarde On Line – Você considera seu trabalho mais reconhecido fora de Salvador tanto por parte do publico e meios de comunicação?

Rebeca – É natural que um pólo cultural como São Paulo tenha mais abertura para a música que faço, porque há menos possibilidade de controle cultural e de massificação orientados por interesses políticos e econômicos concentrados nas mãos de poucos, são menores as possibilidades de produzir disciplina e obediência, enfim, há mais diversidade e pluralidade. Espero que o que faço sirva pra gerar mais diversidade e pluralidade por aqui também.

A Tarde On Line – Por que a escolha em fazer uma versão de “Vapor Barato” (sucesso de Waly Salomão e Jards Macalé, sucesso nas versões de Gal Costa e do grupo O Rappa)?

Rebeca – Vapor Barato acabou entrando no cd de última hora, pois fizemos o arranjo em homenagem a Waly Salomão a convite de José Cerqueira, Risério e Márcio Meireles durante o processo de produção do disco. O resultado ficou muito a cara do que estávamos fazendo. Gostamos muito e incluímos no disco.

A Tarde On Line –  Por que tão poucos shows na cidade?

Rebeca – O último show em Salvador com a banda (antes do lançamento do Rosa Sônica) foi em janeiro de 2005. Depois disso, parei de fazer shows, pois precisava construir outras coisas, numa necessidade incessante de mudança e criação, na elaboração do Rosa Sônica. É fato que também não há muitas opções de espaço para shows. Não gosto de ficar repetindo shows, fico com a sensação de que estou enganando o público quando faço muitos shows parecidos.

A Tarde On Line – Você recusou o convite para assumir os vocais dos Mutantes (já que Rita Lee, não topou participar) no retorno da banda. Não seria uma ótima oportunidade de que um público maior, principalmente no exterior, conhecesse seu trabalho?

Rebeca – Essa história sobre o convite dos Mutantes é muito simples: não se trata de uma recusa. Diante das circunstâncias do meu envolvimento com o cd, o compromisso para entregá-lo, ter que fazer um mergulho no universo dos Mutantes com o tempo que teria para os ensaios, ficou claro para nós que não seria possível a minha participação nesse reencontro. Sinto-me honradíssima com o convite e eles são figuras incríveis, a música Rizoma (faixa 02 do Rosa Sônica), que é uma das que mais gosto, dedico a Arnaldo Batista e Sérgio Dias com muito carinho. Minha participação seria nos vocais femininos, mas não acredito que eles buscassem realmente uma substituta para Rita Lee, mesmo porque nunca haverá uma.

A Tarde On Line – Nesse disco, praticamente todas as músicas são de sua autoria. Você sentiu a necessidade de se afirmar totalmente como compositora em Rosa Sônica?

Rebeca – Estava compondo, o suficiente para fechar o cd, mas isso não quer dizer que no próximo não possa fazer um cd só com versões. Nada está amarrado em definitivo no meu trabalho.

A Tarde On Line – Seu material de divulgação fala em uma fusão entre a IDM (intelligent dance music, de grupos como o inglês Aphex Twin) e MPB. É esta a busca feita em “Rosa Sônica”?

Rebeca – Não há busca de estilo em Rosa Sônica. Há um desejo de expressar-se, dispondo de todas as ferramentas possíveis, tendo como base às letras e músicas que já vinha trabalhando e o nosso tesão de criar sem amarras, sem restrições. Mas é bem diferente do conceito de música experimental. Nós passeamos muito pelo universo da música popular e eletrônica, sem nos prendermos aos seus clichês.

A Tarde On Line – Que artistas você tem escutado?

Rebeca – Aphex Twin, Radiohead, Mum, Mombojó, Tom Zé, Os Mutantes, Nação Zumbi, Tara Code, Dumdum canta possibilidades, Vincent and mister Greem, Novos baianos…

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Publicado em dezembro 6, 2013 por e marcado , , , , , , .
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