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Blog de música. Toda música. Por Lucas Cunha

Lucas Santtana: Ele é da Bahia, ele é do mundo

Imagem de divulgação do disco Sem Nostalgia, um dos melhores trabalhos de Lucas Santtana. Foto: Lucas Bori / DIVULGAÇÃO

Imagem de divulgação do disco Sem Nostalgia, um dos melhores trabalhos de Lucas Santtana. Foto: Lucas Bori / DIVULGAÇÃO

Deu no jornal inglês The Guardian: Lucas Santtana foi escolhido como o representante de Salvador para apresentar ao público inglês a música produzida no Brasil para além dos clichês da bossa nova e dos sons carnavalesco.

A matéria escolheu um artista de cada uma das 12 cidades-sede da Copa do Mundo de Futebol, colocando Lucas como o “embaixador” dos sons produzidos na capital baiana.

Muito humildemente, só me lembrou o título do perfil que fiz para o Jornal A Tarde, em 2009, primeira matéria de capa quando o caderno cultural passou a se chamar “2+”. Lucas Santtana; Ele é da Bahia, ele é do mundo.

Vale o destaque para o “Ele é da Bahia”, porque mesmo nascido e criado em Salvador, Lucas hoje em dia é um cidadão do mundo com sua base no Rio de Janeiro. Mas mesmo “carioca por opção”, sua ligação com a Bahia ainda permanece forte, sempre com parcerias com artistas locais.

Agora em dezembro de 2013, Lucas encerrou, coincidentemente aqui em Salvador, a turnê do seu quinto disco, “O Deus Que Devasta Mas Também Cura”, encerramento da trilogia iniciado com “3 Sessions In A Greenhouse” (2006) e “Sem Nostalgia” (2009).

Com estes três discos, Lucas atingiu uma maior maturidade no resultado das suas fusões dos sons periféricos que usa em sua música. Os dois primeiros parecem uma espécie de laboratório do som que Lucas iria atingir a partir do do “Three Sessions”.

Curioso para ver quais os novos caminhos que a “parada de Lucas” vai tomar com o novo disco, programado para 2014. Mas o percurso até aqui já é bem bonito. Som sempre, xará!

Perfil – Lucas Santtana: Ele é da Bahia, ele é do mundo

Lucas Santtana, um dos mais talentosos nomes da nova música brasileira, é um baiano nascido em berço esplêndido, musicalmente falando.

Ele é filho de Roberto Santanna, produtor musical que tem seu nome marcado na história da MPB por trabalhar com nomes como Clara Nunes, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Claro que o parentesco de Lucas não é tão imediatamente ligado pelo sobrenome, quanto o de um amigo de adolescência, Moreno Veloso (filho de Caetano Veloso). O que não o torna tão conhecido quanto seu colega (e parceiro musical) junto ao grande público.

“Moreno morava no Rio e sempre vinha para Salvador nas férias. Ficamos amigos, para tudo, e tínhamos interesses muito parecidos. O Olodum ainda nem tinha estourado e a gente sempre estava lá, acompanhávamos a Quarta-feira de Cinzas na Praça Castro Alves”, lembra ele.

Hoje em dia, Salvador é outra. E Lucas mudou também. Em 1994, foi morar no Rio como músico da banda de Gilberto Gil, e de lá não saiu mais. Desde 1999, quando lançou “EletroBenDodô”, Lucas vem se afirmando em sua carreira solo, que passa longe do dial das rádios (seu maior sucesso é a regravação de “Mensagem de Amor”, dos Paralamas). Ele é um dos artistas brasileiros que entendeu que disponibilizar músicas para download gratuito amplia o acesso a sua obra.

Por outro lado, ganha mais respeito a cada novo disco porque suas composições desafiam as convenções dos estilos musicais. Pelo visto, ter ficado em casa na infância, ouvindo os discos que sua mãe, Lucinha, comprava para ele, fez bem para sua formação musical.

Flautista – Ainda garoto, ganhou do pai uma flauta, comprada na Alemanha durante uma viagem que Roberto fez com a cantora Clara Nunes. Foi como flautista que deu seus primeiros passos, no início dos anos 90, como músico de Gerônimo, autor do sucesso “Eu Sou Negão”. “Conheci Lucas garotão, já que o pai dele produziu um disco meu. Assim que começou a dar as primeiras notas chamei para tocar comigo”, diz.

Gerônimo lembra de Lucas, com quem não se encontra há quase dez anos (“só vejo ele pela TV, agora”), como um rapaz tímido e concentrado. “Era sempre disciplinado. Acho que isso ajudou bastante para vir a se tornar um grande compositor”.

Outro que se lembra de Lucas como alguém “compenetrado” é o maestro Fred Dantas. “Ele ainda não demonstrava esse lado multi, até porque na filarmônica a gente lida mais com seriedade, leitura de partitura, coleguismo, e isso o Lucas preenchia com toda plenitude. Mas todos os grandes artistas passaram pelo academicismo antes de ir para a vanguarda. As vanguardas sem formação acadêmica são efêmeras”, diz Fred.

O maestro também não encontra com Lucas Santtana pessoalmente há muito tempo. E admite que conhece pouco o trabalho solo de Lucas, mas conta como ouviu pela primeira vez uma música dele.

“No ano passado, estava passando ali pela rua Fonte do Boi (onde fica a loja Midialouca) e escutei uma música muito agradável, muito vanguardista, vindo de uma loja. Parei e perguntei: ‘De quem é essa música?’. Responderam: ‘Lucas Santanna’. Pensei: ‘Aí está o rapaz!'”.

Arto Lindsay – Mas alguns parceiros do início de sua carreira continuam até hoje. Um deles é o produtor norte-americano radicado no Brasil Arto Lindsay, músico da vanguarda nova-iorquina do final dos anos 70, que fixou residência no Brasil, trabalhando com diversos artistas, como Caetano Veloso e Marisa Monte.

“Conheci Lucas através do Moreno (Veloso). Desde então, acompanho os projetos dele. Considero um dos maiores compositores da sua geração, é um artista inquieto, sempre tentando se relacionar com o novo”.

Lindsay foi o primeiro a gravar uma música de Lucas, “Mar da Gávea”, em 1994. Várias parcerias foram acontecendo, especialmente nos discos de Lindsay. Mas agora, no álbum de Lucas “Sem Nostalgia”, a dupla assina três das 12 composições.

“Essa turma com quem eu conheci o Lucas, que tem o Davi Moraes, o Brown e o Moreno, é interessada em música, de todos os períodos. Para eles, tudo está aqui agora, no presente. Quando conheci Lucas, ele, assim como eu, tinha muito interesse na história do Carnaval baiano, nos blocos afros, pelo começo da música de trio. Isso hoje em dia está em evidência, mas, uns 10 anos atrás, estava bem esquecido”, afirma Arto Lindsay.

Pesquisador, mas sem perder de vista o futuro, Lucas Santtana está na linha de frente da nova MPB.

Continuação do perfil – Carlinhos Brown, Daniela Mercury e Tom Zé estão entre os fãs de Lucas Santtana

“Domingo no Candeal”, música de Lucas Santtana gravada por Daniela Mercury, foi seu primeiro destaque para um público maior como compositor. Lucas estava fascinado pelo som pop percussivo da Timbalada e compôs essa homenagem a Carlinhos Brown e seu grupo.

“Ele captou muito bem a imagem do timbaleiro. Aquela coisa da letra, que fala do ‘look de lupa, timbau, tênis Reebok, relógio Shock”, diz Brown.

Daniela, que conheceu Lucas em 1993, diz ter se encantado imediatamente por sua inteligência e sensibilidade.

“A poética de Lucas já traduzia a Bahia com suas raízes e antenas. Uso constantemente trechos das estrofes das músicas de Lucas para explicar o que faço musicalmente e como vejo a Bahia urbana, conectada, globalizada e ao mesmo tempo provinciana. Lucas é poeta, pensador e músico. Ele é um dos excelentes compositores da novíssima geração baiana. Devo gravar mais canções dele”, diz a cantora.

Outro que rasga elogios a Lucas é Tom Zé, primo em segundo grau do músico (Tom é primo carnal do pai, Roberto). “Existem laços familiares, é verdade, mas Lucas é bem melhor do que todas as famílias”, brinca Tom.

A admiração musical é mútua: Lucas regravou a canção de Tom Zé “Ogodô Anos 2000” no seu disco de 2006, o elogiado “3 Sessions In a Greenhouse”. “Ficou um encanto a versão do Lucas, deu uma velocidade e um peso à chamada cozinha da música que eu nunca pensei que ela pudesse ter. Se pudesse, passava a cantar no arranjo dele“.

O risco criativo é uma outra característica que Tom e Lucas dividem. Segundo o primo mais velho, Lucas compartilha isso com ele pela sua origem nas raízes nordestina: “Ele é muito de prestar atenção. Toma nota, avalia bem e passa a fazer parte daquilo que maneja. Isso é uma característica típica do nordestino. E isso quem endossa não sou eu, é (o escritor) Euclides da Cunha”.

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