Monde Musique

Blog de música. Toda música. Por Lucas Cunha

Manu Chao fala sobre a Bahia, Maradona, Lula e Obama

Entrevista feita pouco antes do primeiro show solo de Manu Chao em Salvador em 2009

Entrevista feita pouco antes do primeiro show solo de Manu Chao em Salvador em 2009

Foi difícil conseguir essa entrevista com o Manu Chao. Mas valeu a pena.

Pelas duas semanas que tentei rastrear sua localização para entrevistá-lo, entendi que aquilo que Manu canta em “Desaparecido” é mesmo sua vida:

“Me llaman el desaparecido / Que cuando llega ya se ha ido / Volando vengo, volando voy / Deprisa deprisa a rumbo perdido / Cuando me buscan nunca estoy / Cuando me encuentran yo no soy”

Manu já morou no Brasil e até tem filho por aqui (mora em Fortaleza). Então, além de ir visitar o filho, costuma (ou pelo menos costumava) andar pelo País. Quando tentei o contato com a assessoria da turnê brasileira, para minha surpresa, vem a informação que ele já está em Salvador (isso uns 12 dias antes da apresentação), mas incomunicável.

“O Manu esta em Salvador e estou sem comunicação. bem que você podia virar a esquina e encontrar com ele….”

E assim seguiu, incomunicável, até sua ida para São Paulo, onde começaria a turnê brasileira. Não rolou uma entrevista prévia. Mesmo assim, como já tinha insistido em falar com Manu por tanto tempo, a assessora disse que conseguiria um tempo para conversar com Manu aqui em Salvador.

Foram pouco mais de 15 minutos, na saguão do antigo hotel da Bahia, antes de partir na van para o show que faria na Concha. Zero estrelismo. A descrição que Manu fez sobre Maradona, para quem já dedicou pelo menos duas músicas, serve para descrever o próprio Manu e suas andanças pelo mundos: “Ele é um cara da periferia, tem os códigos da periferia qualquer lugar do mundo, que são internacionais: de irmandade e malandragem.”

Saludos, Manu!

Sobre como foi o show em Salvador, ler aqui.

Matéria originalmente publicada em 14/02/2009

Pouco antes de ir para a Concha Acústica se apresentar pela primeira vez, em carreira solo, na capital baiana, Manu Chao cedeu esta entrevista no saguão do Hotel da Bahia, onde aguardava junto com os integrantes de sua banda a van que os levaria para o local da apresentação.

Muito simpático e sem nenhuma ponta de estrelismo, Manu pareceu não muito disposto a detalhar sobre sua relação pessoal com a Bahia, local por onde permaneceu por mais de uma semana antes de começar sua turnê brasileira em São Paulo.

Mas quando o assunto passou para Maradona, jogador que Manu já dedicou duas músicas em sua carreira, política (os presidentes Sarkozy, Lula e Obama) e música, o cantor francês de 47 anos(em 2009), que aparenta bem menos, ficou bem mais a vontade.

Confira o bate-papo:

Antes do início da turnê brasileira, você passou alguns dias aqui na Bahia. Qual sua relação com o estado?

Primeiro tenho que dizer que é um prazer tocar aqui. Toquei em Salvador na Concha em 1992 com o Mano Negra. Ano passado, toquei com o Bnegão e Bi Ribeiro(no Festival de Verão). Agora, posso tocar com toda a banda. Acho que a Concha Acústica é um lugar único. Também quero mandar um “saludo” para o pessoal de Saúde, Cicero Dantas, lugares por onde eu passei. Elas moram no meu coração. Na verdade, eu viajei por aí. Foi muito bom.

Quando saiu o seu disco ao vivo “Radio Bemba Sound System”, tive a sensação que suas músicas funcionariam muito bem no carnaval de Salvador, em cima de um trio elétrico. Você toparia participar?

Eu nunca experimentei. Esse ano é impossível, estaremos na Argentina em turnê na época do Carnaval. Mas me agradaria muito. Com certeza seria algo interessante.

Sua última música de trabalho, que dá nome a turnê Tombolatour, “La Vida Tombola”, foi feita para o documentário do Emir Kusturica (cineasta sérvio) sobre o Maradona. Você já tinha feito uma outra canção, na época do Mano Negra (“Santa Maradona”), sobre o jogador. Qual sua impressão sobre ele?

Conheci Maradona em Nápoles, durante as filmagens do filme do Kusturica, quando fiz a música “La Vida Tombola”. O Diego tem essa coisa que é um Deus e, ao mesmo tempo, um diabo. E ele tem um pouco dos dois. O que é certo, vivendo com ele uns dois dias, é que não é fácil ser Diego Maradona. Ele é um cara da periferia, tem os códigos da periferia qualquer lugar do mundo, que são internacionais: de irmandade e malandragem. Tenho muito respeito por ele, agora é um amigo. Também tenho respeito por ele ser um dos poucos jogadores que sempre falou a verdade. A minha música fala que os verdadeiros bandidos estão na Fifa, não nos sapatos de Diego.

Não posso deixar de perguntar. Quem foi melhor: Pelé ou Maradona?

Não vou responder a isso (risos). Na verdade, a dúvida é entre Garrincha e Maradona.

Você sempre foi visto como um cronista da situação mundial. Queria que você desse sua opinião sobre três lideres de países que, de alguma forma, tem certa influência na sua vida: o francês Nicolas Sarkozy, do seu país de origem; o Lula, já que você tem um filho aqui no Brasil (o garoto mora em Fortaleza) e o Barack Obama, dos Estados Unidos.

O que conheço melhor é Sarkozy. Ele é vergonha da França. Representa a decadência da política na Europa. A primeira geração foi o Berlusconi na Itália, que vem totalmente do poder econômico. Ele não está lá para defender as pessoas, e sim, para defender a economia. Sarkozy é um filho de Berlusconi, totalmente comprometido com essa economia selvagem.

E Lula?

Eu não moro aqui, por isso não posso comentar sobre o Lula. Com certeza, ele poderia fazer mais. A outra certeza, como já faz tempo que ele está no poder, é que ele é melhor do que os outros que estiveram no poder antes.

E Obama?

O dia que ele foi eleito foi simbolicamente positivo. Mas ele é político, do partido Democrata, e até agora não me deu provas que vai mudar o imperialismo americano. Vamos ver. Mas, como falamos antes no caso do Lula, é bem melhor do que o que veio antes. Isso é positivo. Agora, se o cara vai mudar os Estados Unidos para um país menos agressivo mundialmente, tenho grandes dúvidas.

Uma das coisas mais interessantes que descobri ultimamente é a dupla de cantores do Mali Amadou e Mariam, que você produziu em 2005 no disco “Dimanche à Bamako” e tornou o grupo mais conhecido mundialmente. (Ano passado, a dupla lançou “Welcome To Mali”, já sem a produção de Manu Chao, mas igualmente celebrado pela crítica internacional). Você pretende trabalhar novamente na produção?

Agora estou o produzido um disco do filho de Amadou e Mariam, que vai sair esse ano. Ele tem uma banda de hip-hop, que se chama SMOD. É uma outra geração, mais urbana, entre 22 e 24 anos. É difícil tentar explicar sobre eles, porque é um hibrido: suas influências são a música tradicional do Mali e o hip-hop.

Em entrevistas na sua última passagem pelo Brasil, você disse que não gravaria mais discos. Continua afirmando isso?

Por agora, estou de cabeça nessa nova mistura que vem de Bamako (capital do Mali), isso é o que me interessa. Além disso, tenho um trabalho com uma rádio na Argentina, que é feita dentro de um hospital psiquiátrico com o pessoal de lá. Já estamos juntos há bastante tempo e devemos lançar algo relacionado a isso este ano.

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Publicado em dezembro 6, 2013 por e marcado , , , , .
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